Uma hora de desenvolvimento econômico sob a ótica liberal

27 09 2011

Gostei do texto e indico a leitura! Abs.

*João Victor Guedes

Alguns poucos meses depois de graduado, tive a honra de retornar à Universidade Federal de São João del-Rei como convidado do professor Ivis Lima e do quase economista PHD Pereira para participar de uma de suas aulas da disciplina de Desenvolvimento Socioeconômico. A missão era a de explicar para a turma do quarto período de Ciências Econômicas a ótica liberal sobre o desenvolvimento.

Como o período de uma hora e meia me limitava à resumir as principais idéias, resolvi tratar dos conceitos liberais de forma aplicada às realidades do indivíduo, da história econômica brasileira e da economia mundial.

Antes de começar, no entanto, fiz uma breve explicação – bem generalista – sobre o que representava cada uma das correntes liberais: o social-liberalismo, que prega liberdades sociais em paralelo ao intervencionismo estatal; o liberalismo clássico, que afirma não ser possível existirem liberdades individuais caso não exista a liberdade econômica plena; o neoliberalismo, uma espécie conservadora dos liberais formados pela Escola Monetarista; e o libertarianismo, derivado da Escola Austríaca de Ludwig Von Mises que coloca o Estado em uma esfera secundária ou desnecessária para a evolução da economia e do indivíduo. A minha narrativa se pautaria por um meio termo entre esta última corrente e o liberalismo clássico.

Basicamente, levantei que o embrião do liberalismo, bem como o da maioria das correntes políticas e econômicas, havia sido derivado da moral cristã. Seu primeiro autor fora Santo Agostinho a partir do livro “Livre Arbítrio” onde afirmou que, apesar da existência dos dez mandamentos, o indivíduo era livre para optar pelo que fazer. O cidadão poderia, por exemplo, cobiçar a mulher do próximo que, mesmo assim, a Igreja não poderia impedi-lo ou puni-lo. Isto caberia a Deus em seu julgamento final que o levaria para a vida eterna no Céu ou não.

Em termos de liberais, a questão era semelhante: aqueles que ferissem a moral da comunidade estariam automaticamente se excluindo, não pela reclusão promovida pelo Estado, mas pelo preconceito gerado pela sociedade. Alguns exemplos são bem simples e se aplicam ainda hoje: os conhecidos por não honrar suas dívidas não teriam mais crédito no mercado; os cidadãos não violentos evitariam o convívio com os assassinos.

Além da questão social, Santo Agostinho acabou ainda por dar o tom do que seria a teria dos libertários sobre a taxação. Afirmou que, seguindo a ótica do livre arbítrio, a bondade e a filantropia deveriam ser espontâneas uma vez que, caso impostas, perderiam seu caráter de benevolência.

A aplicação deste discurso à sociedade atual coloca os impostos como uma contradição à liberdade do indivíduo. Obriga-se, utilizando o caso brasileiro, a ceder 47% do suor do trabalhador para que o Estado faça filantropia, ao invés de permitir a cada um que escolha como melhor deve gastar – ou distribuir – seus recursos.

O resultado é trágico: de um lado, a responsabilidade individual sobre o meio dá espaço à busca infinita pela sonegação e pela contestação ao papel do Estado; do outro, a corrupção e o aparelhamento político que, independente do partido governista, geram uma maquina burocrática que acaba por fazer tal recurso valer menos de um terço daquilo que seria na mão do indivíduo.

Entender isto é fácil: para tomar o dinheiro do trabalhador, o Estado precisou construir e contratar entidades financeiras para cobrar e gerir; políticos e casas governamentais para definir normas; escolas, professores, médicos e hospitais para gastar, fiscais para tomar conta do processo; e mais uma série de profissionais intermediários que nunca teriam existido caso o dinheiro fosse gasto diretamente pelo indivíduo.

Este fenômeno fora identificado séculos depois por Thomas Hobbes em seu “Leviatã”, onde narrou o crescimento de um monstro, figura representativa do Estado, que se, sob a desculpa da segurança e ordem, tornava-se tão grande à ponto de não se poder viver sem ele.

Daí, podemos voltar mais uma vez para a ótica do indivíduo a fim de entender a raiz do problema. A sociedade, bem como qualquer organismo ou instituição, é formada por indivíduos e não por um coletivo. Quando pensamos, por exemplo, em um partido político como corrupto, estamos cometendo um equívoco: a instituição não comete atos ilícitos, quem o faz são seus filiados, de maneira individual ou pela soma do trabalho de indivíduos. O mesmo, neste caso, ocorre com o Estado que, composto por indivíduos, é incapaz de ser totalmente honesto ou, em uma suposta benevolência, é incapaz de deter o conhecimento absoluto para afirmar com propriedade quais sãos os melhores caminhos a se tomar – até mesmo na definição do que é ou não estratégico para a sociedade, já que tal decisão depende de valores individuais e varia de cidadão para cidadão.

No final, o que acabamos por criar é uma “super classe” de indivíduos que possui poderes místicos para afirmar como o dinheiro de cada cidadão deve ser gasto. É a isso que o liberalismo se opõe.

E foi isso que vimos durante o último século da economia brasileira. Tomando por base a pesquisa do nacional-desenvolvimentista Celso Furtado sobre a formação econômica do país, podemos perceber claramente que nosso desenvolvimento inicial foi orientado pelas práticas agrícolas que permitiram tanto a acumulação de capital por conta dos produtores como a formação de um mercado auxiliar criado voluntariamente para suprir as demandas das famílias residentes – incluindo uma gama de oferta que variava desde o comércio de roupas até a prestação de serviços de beleza.

Tal acumulação se deu de forma mais acelerada na região hoje ocupada pelo estado de São Paulo, por conta das condições climáticas e de solo que favoreceram a produção cafeeira – que já era a mais rentável do continente. Pouco à pouco, com a percepção de que o mercado mundial passava por uma aceleração da agregação de valores industriais, os produtores paulistas passaram a investir o acúmulo de suas receitas no desenvolvimento da agroindústria, agregando valores à sua produção e aumentando a oferta de bens e serviços para a população local. Tal processo garantiu o desenvolvimento do estado que, até hoje, se coloca como mais avançado do país.

No entanto, o problema veio na década de trinta quando um político, humano como nós, decidiu que estratégico seria endividar o país para gerar industrias para as quais não tínhamos nem maquinário, nem mão de obra, nem tradição produtiva. Getúlio Vargas, o então presidente, rasgou a cartilha de David Ricardo sobre as vantagens comparativas e instituiu o primeiro processo de substituição de importações que equipou o país com maquinário ultrapassado – pois era o máximo que era os empréstimos permitiam comprar –, endividou o país – aumentando a inflação que já era alta – e não conseguiu reduzir a dependência pelas importações.

Após alguns poucos anos após, um novo presidente contraiu em cinco anos as dívidas de cinqüenta, com a finalidade de promover um segundo processo de substituição de importações e de construir uma cidade, a partir do zero, no centro geográfico do país. As conseqüências foram drásticas.

Desconsiderando o fator político de se tirar a capital do país de seu centro cultural para levá-la a uma região onde se demoraria, no mínimo, doze horas de ônibus para se promover manifestações, tracei alguns paralelos com demais países.

Levantei o caso da Rússia, super desenvolvida no entorno de Moscou e São Petersburgo que acabam por receber uma migração massiva da região leste do país – hoje sub-habitada. A proposição do presidente Medveded, hoje considerada absurda por todo o mundo, foi a mesma de Juscelino Kubitschek: construir, do zero, oito grandes cidades no leste russo.

Por outro lado, tínhamos o argumento da segurança nacional, sendo o centro geográfico do país mais seguro para a nossa capital. Seguindo esta ótica, a capital dos Estados Unidos seria no Texas e, por falta de opção, a de Portugal passaria para a França.

Tal estratégia econômica além de não desenvolver a região central do país acabou por endividar ainda mais a nação, criando mais problemas cambiais e promovendo mais um avanço inflacionário.

Durante o regime militar o cenário não foi diferente. Vimos Delfim Neto, um economista brilhante, promover políticas econômicas de toda a variedade heterodoxa ao mesmo tempo em que multiplicava o gasto público e o número de empresas estatais. O resultado foi um crescimento econômico imediato que deixou cicatrizes ainda maiores: mais endividamento, mais inflação, mais crise cambial e mais desigualdade social.

A resposta, felizmente, veio de fora: o Consenso de Washington definiu que não haveria mais crédito para estimular o endividamento infinito das economias desenvolvimentistas e que cada centavo deveria ser utilizado para garantir a estabilidade econômica. A partir daí, os “estrategistas” brasileiros teriam de buscar outra alternativa.

Na redemocratização foi o que acabou por acontecer e, por alguns poucos anos, os liberais acabaram por se ver representados. O primeiro deles, Fernando Collor de Melo, teve graves problemas com corrupção mas, antes de sofrer o impeachment, proferiu um discurso que mudou as bases econômicas do país. Ao dizer que “os carros brasileiros mais pareciam carroças”, evidenciou o problema de se pagar por um Fusca no Brasil o que se pagava por um Mercedes-Benz na Alemanha e, como solução, baixou tarifas alfandegárias e impostos para abrir a economia do país.

Seu vice, Itamar Franco, trabalhando em conjunto com o ministro Fernando Henrique Cardoso, que viria a governar o país por oito anos, deram continuidade as reformas: reduziram a máquina pública, cortaram os gastos governamentais e aumentaram a taxa de juros, promovendo uma contenção de demanda que, aliada ao avanço da oferta de bens importados, acabou por conter a inflação a partir do chamado Plano Real.

A teoria sobre a fórmula da estabilidade era simples: a inflação de demanda seria cortada por um mix entre a contenção da demanda com a expansão da oferta, ao mesmo tempo em que se reduzia o tamanho do estado dando mais espaço para que o mercado buscasse seu equilíbrio de forma autônoma. E deu certo: a inflação foi contida, a economia se estabilizou e a qualidade de vida do cidadão aumentou.

Logo após vieram Lula e Dilma que, apesar de no início manter as linhas gerais estabelecidas por FHC, acabaram por mudar estruturalmente seu modelo econômico: aumentaram o gasto governamental e, como não haviam mais empréstimos internacionais, estabeleceram duas medidas. A primeira, imprimir moeda, foi pelo gargalo, obrigando o Estado a aumentar ainda mais a carga tributária – tomando, por exemplo, o mais que recente caso da elevação do IPI para carros não produzidos integralmente no Brasil.

Sem me aprofundar na análise aos governos Lula e Dilma, uma vez que não teriam explicação diferente ao nacional-desenvolvimentismo que já vivemos, entramos na temática do IPI, que acabou por despertar a atenção de alguns presentes.

O protecionismo, além de não estimular o crescimento da industria nacional, gera uma guerra fiscal no mercado internacional e prejudica toda a economia local. A fórmula é simples: se o preço dos carros estrangeiros se elevar, por exemplo, 30%, seus concorrentes nacionais elevarão seus preços em 25% e ainda assim terão a vantagem comparativa. O palco para a inflação estará armado e, pior: a parcela de renda que poderia ser distribuída entre outros consumos acabará comprometida pela elevação do gasto com automóveis.

A má notícia, após este cenário todo, é que ocupamos hoje a 102ª posição no ranking da liberdade econômica – lançando neste mês pelo Instituto Fraser – estando atrás de países como a Rússia (pós-URSS) e o Haiti. A boa notícia, no caso, é que ainda estamos na frente de Malaui e Zimbábue.

Inserido neste cenário de massivos investimentos públicos o Brasil acabou por não sofrer a crise mundial como as economias européias. Isso é fato. Mas também é verdade que os recursos no Estado não existirão para sempre e, mais cedo ou mais tarde, entraremos em uma recessão semelhante ou pior às de Portugal, Grécia e Irlanda… Com uma infeliz diferença: somos grandes demais para sermos salvos.

O que vemos lá fora, com os aportes de recursos internacionais, é que o caminho tomado é diferente do histórico brasileiro: ao invés de gastar mais e mais, os Estados em crise estão contendo seus investimentos e dando mais espaço para o mercado, enquanto utilizam o endividamento para substituir impostos neste período de transição para uma economia liberal.

Vendo tudo isso, percebemos que Keynes fez um brilhante trabalho ao escrever sobre os benefícios do endividamento Estatal. Infelizmente, para governos e cidadãos, não terminou sua tese ensinando a pagar a dívida.

Encerrei minhas palavras dizendo que as escolas monetária e austríaca trabalham exatamente em cima disso e, para os interessados em conhecê-las melhor, sugeri três blogs: danieljmitchell.wordpress.com – em inglês, sobre a economia americana e fatos sobre o mundo –, rodrigoconstantino.blogspot.com – com análises liberais sobre a economia brasileira – e o meu, www.joaovictorguedes.com.br, com um pouco de cada.

*João Victor Guedes (contato@joaovictorguedes.com.br) é economista formado pela Universidade Federal de São João del-Rei, vice presidente nacional da Juventude Democratas e tesoureiro da Federação Internacional de Juventudes Liberais.





Paradiplomacia e Mato Grosso do Sul: o potencial do estado no ambiente internacional

6 09 2011

A Faculdade de Direito e Relações Internacionais – FADIR da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD está com inscrições abertas para o Seminário e mini-curso “A paradiplomacia e Mato Grosso do Sul: o potencial do Estado no ambiente internacional”.

O projeto de extensão universitária será realizado nos dias 19 e 20 de setembro, no cine auditório da Unidade 1 – prédio da Reitoria. As vagas são limitadas e abertas para toda comunidade. O evento possui apoio do Centro Internacional de Negócios – CIN da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul – FIEMS, SEPROTUR, Fundação Escola de Governo de MS, Governo do Estado de MS, Secretaria de Relações Institucionais (Assuntos Federativos) do Governo Federal.


Todo o conteúdo de informações sobre o Seminário e o mini-curso está disponível no site:

www.ufgd.edu.br/eventos/paradiplomacia

Mais informações pelo telefone: 67-3410-2467 ou pelo e-mail: paradiplomacia@ufgd.edu.br

Apresentação:

O Projeto de Extensão “A paradiplomacia e Mato Grosso do Sul: o potencial do Estado no ambiente internacional” tem como objetivo analisar e discutir a participação do Estado de Mato Grosso do Sul no processo de integração regional e sua inserção no plano internacional, através do instituto da paradiplomacia e da cooperação descentralizada internacional. A proposta do projeto é envolver os atores públicos, privados, sociedade civil e a comunidade acadêmica na discussão sobre a internacionalização das ações subnacionais e dos ganhos políticos, econômicos e sociais promovidos por estas ações.

Realização:

* Faculdade de Direito e Relações Internacionais – UFGD
* Pró-Reitoria de Extensão e Cultura – UFGD

Apoio:

* Secretaria de Relações Institucionais (Assuntos Federativos) – Governo Federal
* Fundação Escola de Governo de Mato Grosso do Sul – MS
* SEPROTUR – MS
* Centro Internacional de Negócios (CIN) – Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul – FIEMS

Coordenação: Prof. Henrique Sartori de Almeida Prado

Website oficial: http://www.ufgd.edu.br/eventos/paradiplomacia

ATENÇÃO: INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 15/09/2011





Em Londres…. Riots e Direitos Humanos… Vale a pena entender…

26 08 2011

Em português…





Moçambique oferece ao Brasil área de 3 Sergipes

25 08 2011

Replicando matéria da Folha (14.08.2011)

Vale a pena discutir…

Mas deixo bem claro que não concordo com a posição do presidente da Associação… “Tomar conta da África” é duro de ler…

O tema da cooperação internacional é muito interessante. Vale a pena ler a matéria.

 

Moçambique oferece ao Brasil área de 3 Sergipes

“Os agricultores brasileiros têm experiência acumulada que é muito bem-vinda. Queremos repetir em Moçambique o que eles fizeram no cerrado 30 anos atrás”, afirma o ministro da Agricultura de Moçambique, José Pacheco.

“A grande condição para os agricultores é ter disposição de investir em terras moçambicanas”, diz Pacheco. É preciso empregar 90% de mão de obra moçambicana.

CONCESSÃO

A terra em Moçambique é propriedade do Estado e pode ser usada em regime de concessão, que está aberto a estrangeiros. O governo busca agricultores brasileiros por causa da experiência no cerrado, que tem características climáticas e de solo muito semelhantes à área oferecida.

As terras oferecidas aos brasileiros estão em quatro províncias da região Norte:

Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia. A região é superior a toda área cultivada de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo (cerca de 5 milhões de hectares).

Os produtores vão a reboque da Embrapa, que mantém na área o projeto Pro-Savana, com a Agência Brasileira de Cooperação e a Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão).

O projeto de cooperação técnica em Moçambique é o maior da Embrapa fora do Brasil -terá 15 pessoas a partir de outubro. Em duas estações no norte do país, eles estão testando sementes de algodão, soja, milho, sorgo, feijão do cerrado brasileiro, para adaptá-las ao norte moçambicano.

“Nessa região, metade da área é povoada por pequenos agricultores, mas a outra metade é despovoada, como existia no oeste da Bahia e em Mato Grosso nos anos 80″, diz Francisco Basílio, chefe da Secretaria de Relações Internacionais da Embrapa.

O governo vai dar isenção fiscal para importar equipamentos agrícolas.

Conheça mais sobre o Estado:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mo%C3%A7ambique

http://www.portaldogoverno.gov.mz/





II Semana Acadêmica de Relações Internacionais da UFGD

26 04 2011

A UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) promove de 18 a 20 de maio a II Semana Acadêmica de Relações Internacionais. As inscrições para participação como ouvinte ou para apresentação de trabalho podem ser realizadas no sitewww.semanariufgd.com.br .


Os trabalhos serão apresentados no Encontro Científico “Fronteiras, Integração Regional e Desenvolvimento” e os interessados têm até 09 de maio para inscrever o resumo. Os trabalhos aceitos serão publicados no dia 11 de maio na página do evento.

Já a programação da II Semana Acadêmica conta com palestras sobre “O ensino das Relações Internacionais no Brasil” com a Profa. Dra. Cristina Soreanu Pecequilo (UNIFESP), “A política externa brasileira e a Integração regional” com o Prof. Dr. André Reis Silva (UFRGS), “O mercado de trabalho e o novo perfil profissional das Relações Internacionais” com Clara Rosana Piva (IEL/MS) e “20 anos de Mercado Comum do Sul: balanço e perspectivas” com os professores mestres Henrique Sartori de Almeida Prado, Hermes Moreira Junior, João Nackle Urt e Tomaz Espósito Neto.

 

Comissão Organizadora:

Prof. Dr. Alfa Oumar Diallo

Prof. Me. Henrique Sartori de Almeida Prado

Prof. Me. Hermes Moreira Junior

Prof. Me. João Nackle Urt

Prof. Dr. Mario Teixeira Sá Junior

Prof. Me. Tomaz Espósito Neto

Mais informações

Faculdade de Direito e Relações Internacionais – FADIR/UFGD
Rua João Rosa Góes, 1761 – Vila Progresso
Dourados/MS – CEP 79.825-070
Informações:
www.semanariufgd.com.br
semanari@ufgd.edu.br
Twitter: @semanariufgd
Telefone (67) 3410-2460

(Via Assessoria de Comunicação UFGD)





Artigo – O “spillover social” africano e seu processo de integração regional.

7 03 2011

Desde as manifestações ocorridas no início do ano, na região do Magrebe, a África tem estado em evidência, tanto na mídia, como na política. Não é novidade a notícia de que aproximadamente trinta Estados africanos[1] vivem uma tênue relação com a liberdade e a democracia. Contudo, por motivos econômicos e políticos, algumas distorções com relação a esses dois valores são toleradas no plano internacional.

Vale fazer uma avaliação sobre os atuais acontecimentos e o processo de integração vigente na África. A efervescência que começou na Tunísia e que vem se espalhando no continente africano está carregada de esperança e acontecimentos que podem ser decisivos e que, transformarão a ordem política e social na região do Magrebe.

Magrebe

As transformações políticas decorrentes das manifestações populares na Tunísia, no Egito e agora com mais intensidade na Líbia, estão provocando mudanças circunstanciais na ordem política interna desses Estados, todavia, esses acontecimentos tendem a derramar por todo o norte da África e até mesmo, no continente asiático, uma nova postura por parte dos governantes.

Esse processo de mudança poderá atingir as iniciativas de integração regional no continente africano, pois, em alguns casos, essas iniciativas têm sucumbido às instabilidades políticas internas e às guerras de fronteira, ficando a democracia reduzida a uma formalidade sem significado real (BASTOS, 2008, p. 298).

Atualmente a África possui cinco iniciativas integrativas (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental; Comunidade econômica dos Países da África Central; Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral; Mercado Comum da África Oriental e Austral e União do Magrebe Árabe). A União Africana, por sua vez, de acordo com o seu ato constitutivo, possui por atribuição dentro do processo de integração regional africano, a promoção e consolidação da unidade do continente; o fomento da união, da solidariedade e da coesão; a busca pela eliminação do flagelo dos conflitos; habilitar a África a fazer face aos desenvolvimentos políticos, econômicos e sociais da ordem internacional; promover as instituições democráticas, a participação popular e a boa governança; dentre outros.[2]

Bandeira União Africana

 

A União Africana, fruto do novo consenso diplomático regional, representa, atualmente, um ambicioso projeto, talvez o mais decisivo passo na eficaz institucionalização política da África, desde o término do acelerado processo libertário ocorrido naquela região, após a Segunda Guerra Mundial (NADER, 2008, p. 222).

Nesse aspecto, a agitação política e social no continente africano e o seu processo de integração regional parecem caminhar para uma convergência. Tanto o apelo popular dos países anteriormente citados, quanto as iniciativas integrativas, possuem por objetivo criar uma nova onda de sentido de valores e interesses.

Como o processo de integração regional, que, na visão do neofuncionalista Ernest Haas, caminha para um efeito de spillover (uma espécie de um ‘derramamento’ de funções que o processo de integração produz), os acontecimentos sociais e políticos iniciados neste ano na África, naturalmente e de forma positiva estão repercutindo e se espalhando como um efeito de “pedra no lago”.

As manifestações pela democracia e pela liberdade na África têm despertado a sociedade e com isso, intensificando a interação desses valores e interesses por mudanças nas instituições africanas, onde, a sociedade, tem visto que a integração das ações políticas produz mais benefícios do que custos.

O momento que a África vive, é um exemplo prático de um “spillover social”. Onde as vontades de mudanças institucionais, a luta pela liberdade política e a real manifestação democrática estão sendo derramadas pelo continente.

A democracia permite que diferentes setores da sociedade possam participar, possibilitando o aprofundamento do processo integracionista, bem como sua manutenção e aumento de sua influência. Assim, podemos dizer que o processo de integração africana, tende a se transformar com as mudanças em curso na África, bem como podemos dizer, que a liberdade é um dos pontos cruciais para que a democracia de fato possa ser aplicada.

Esse momento caracteriza muito bem o regionalismo multidimensional vivido atualmente.  Esse regionalismo lida, com um número maior de políticas do que o antigo modelo, balizado no comércio (LANGENHOVE & COSTEA, 2004, p. 251). A nova postura integrativa é determinada pelas mudanças que a globalização trouxe e um exemplo prático dessa mudança está no uso da internet e de redes sociais como meio eficaz de comunicação e divulgação, principalmente quando utilizada para chamar a atenção da comunidade internacional, como o caso em questão.

A África caminha olhando para frente, não está mais à margem do desenvolvimento. Alguns países africanos têm crescido consideravelmente nos últimos anos[3]. O fluxo de investimentos externos diretos e a presença de empresas transnacionais no continente têm justificado esse crescimento (SARAIVA, 2008, p. 92).

O que ocorre atualmente é o reflexo da vontade de transformação. A necessidade de desconstruir um ambiente político que oprime as liberdades e que patrocina a separação do indivíduo de seus direito, já não cabe mais. Nesse contexto, segundo Huntington (1991, p. 315), a expansão da democracia é seguida por fatores ligados ao desenvolvimento econômico e pela liderança política. Assim, o crescimento econômico da região e as crescentes manifestações em prol da democratização, fazem emergir um novo momento, uma nova onda na África, que por sua vez, serão construídas a partir de novas referências políticas e sociais que irão, num curto momento, influenciar positivamente seu processo de integração.

Referências Bibliográficas:

BAHIA, Luiz Henrique Nuynes (2002). As Áfricas e suas Ordens Políticas: entre o Otimismo e o Pessimismo. In: COELHO, Pedro Mottas Pinto; MENDONÇA, Hélio Magalhães de (Orgs.). Relações Brasil-África: um colóquio. Brasília: IPRI/Funag, 2002.

BASTOS, Lucia Elena A. Ferreira (2008). Organizações Internacionais da África. In: MERCADANTE, Araminta de Azevedo; CELLI JUNIOR, Umberto; ARAÚJO, Leandro Rocha. Blocos econômicos e integração da América Latina, África e Ásia. Curitiba: Juruá, 2008, p. 265-299.

FMI. Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook, 2010. Disponível em: [http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2011/update/01/pdf/0111.pdf] Acesso em: 19/02/2011

HAAS, Ernst B. (1958) The Uniting of Europe, Stanford University Press.

HAAS, Ernest B. (1970) The study of regional integration: Reflections on the Joy and Anguish of Pretheorizing. International Organization, Cambridge University Press, v.24, n.4, p. 607-646.

HUNTINGTON, Samuel P. (1991) The Third Wave: Democratization in the Late Twentieth Century. University of Oklahoma Press.

LANGENHOVE, Kuk Van; COSTEA, Ana-Cristina (2004). A relevância da integração regional na África. In: SANTOS, Theotonio dos (Coord.); MARTINS, Carlos Eduardo; SÁ, Fernando; BRUCKMANN. Mónica (Orgs.). Globalização e Regionalização. Rio de Janeiro: Ed. PUC-RIO, p. 247-269.

NADER, Adalberto. União Africana. União Africana (UA) (2008). In: MERCADANTE, Araminta de Azevedo; CELLI JUNIOR, Umberto; ARAÚJO, Leandro Rocha. Blocos econômicos e integração da América Latina, África e Ásia. Curitiba: Juruá, p. 221-264.

SARAIVA, José Flávio Sombra (2008). A África na ordem internacional do século XXI: mudanças epidérmicas ou ensaios de autonomia decisória? Revista brasileira de política internacional – RBPI, Brasília, v.51, n.1. Disponível em: [http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003473292008000100005&lng=pt&nrm=iso] Acesso em  19/02/2011.

Henrique Sartori de Almeida Prado

Professor do Curso de Relações Internacionais da UFGD

Especialista em Relações Internacionais (UNB)

Mestre em Direito e Relações Internacionais (PUC-Goiás)

Artigo Publicado no Mundorama
(www.mundorama.net) 01.03.2011

[2]Artigo 3.º do “Ato Constitutivo da União Africana” (2001).

[3] Fundo Monetário Internacional 2010 – http://www.imf.org/external/datamapper/index.php

 





O caminho da internacionalização: um desafio para Dourados

8 02 2011

Os últimos acontecimentos na cidade de Dourados serviram para que a população pudesse refletir seu futuro e consequentemente, escolher um caminho a traçar. Muito se falou em melhoria do sistema de saúde, educação, investimento em obras emergenciais e combate à corrupção e que, com certeza, são assuntos fundamentais para a população e para o aumento da qualidade de vida nesta bela e rica cidade.

Porém, outro assunto discutido na mesma intensidade, foi a questão do desenvolvimento da cidade, principalmente ligado à sua economia.

Buscar o crescimento econômico é uma meta de todos que se dispõem a administrar a coisa pública, pois, através do incentivo ao desenvolvimento econômico pode-se incrementar mais o orçamento público e, posteriormente, pode-se destinar mais recursos a áreas fundamentais para o crescimento da qualidade de vida e da melhoria da auto-estima da população.

Neste sentido, em busca do desenvolvimento, muitas prefeituras estão rompendo um importante paradigma: o desafio de buscar o mundo. Ao buscar novos ares e novas experiências, seja no âmbito da gestão, como ferramentas de nova gestão pública (mais racionalizada, com foco no cidadão, na qualidade da gestão e novos sistemas de controle, etc.); ou no âmbito da cooperação internacional, as cidades tem encontrado um grande campo de vantagens e oportunidades.

Assim, o fenômeno da paradiplomacia tem se mostrado eficaz como um instrumento de inserção das cidades no âmbito internacional. A paradiplomacia é, antes de tudo, uma possibilidade que os governos municipais têm de buscar parcerias para o seu desenvolvimento, não dependendo exclusivamente da ação dos seus respectivos governos centrais, isso tudo, sem ferir a ordem jurídica e legal vigente.

Sendo assim, cidades de porte similar ao de Dourados tem alcançado importantes resultados no aspecto da internacionalização e tem criado órgãos administrativos eficazes e inclinados a cuidar deste assunto em especial (pois enxergaram oportunidades além de suas fronteiras), como o caso de Suzano (SP) ao criar uma diretoria de integração regional, cooperação internacional e captação de recursos; de Joinville (SC) ao instituir a Secretaria de Integração e Desenvolvimento Econômico; e de São José do Rio Preto, cidade do interior paulista, que vislumbrou oportunidades no comércio exterior, criando a Agência de Desenvolvimento do Comércio Exterior.

É importante ressaltar que cada município brasileiro possui suas vantagens comparativas e diferenças, mas no processo de internacionalização é importante que cada cidade faça seu planejamento estratégico e busque desenhar sua vocação.

As cidades buscam novos horizontes, até mesmo para poder suprir suas necessidades (KEATING, 2000, p. 14), pois ao contrário da vocação da política externa clássica (leia-se aqui, a dos países), as cidades buscam o equilíbrio regional, onde na prática a política adotada externamente pelo Estado atinge diretamente a vida das pessoas.

O crescimento vertiginoso dos convênios e protocolos internacionais fomentados pelos municípios brasileiros é latente. O efeito prático se revela nas negociações diretas que vários municípios vêm mantendo com organismos econômicos (RODRIGUES, 2009, p.36), tais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial (BIRD), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Fundo para Convergência Estrutural do Mercado Comum do Sul (FOCEM/MERCOSUL), dentre outros.

A preocupação da gestão municipal de buscar fontes de financiamento e investimento estrangeiro e de incentivar a promoção do município no exterior é de fundamental importância, visto que o Brasil, no ano de 2010, atingiu a marca de US$ 48,4 bilhões em investimento estrangeiro produtivo e é evidente que o investimento procura lugares preparados e seguros.

Dourados já ocupou a segunda colocação na balança comercial do Mato Grosso do Sul, hoje, amarga a quarta posição (seguida de perto por Ponta Porã) e em termos de aumento de exportação, perde para Angélica, São Gabriel do Oeste, Cassilândia, Maracajú e Rio Brilhante, sem mencionar as cidades de Campo Grande, Corumbá e Três Lagoas, que se encontram melhores colocadas.

A internacionalização do município é um importante desafio para Dourados. Retomar e ampliar sua importância neste contexto é fundamental. Ao expor Dourados ao mundo, podem-se atrair novos investimentos, empregos e oportunidades.

Referências Bibliográficas:

KEATING, Michael. Regiones y assuntos internacionales: motivos, oportunidades y estratégias. In: ALDECOA, Francisco e KEATING, Michael (eds.) Paradiplomacia: las relaciones internacionales de las regiones. Madrid: Marcial Pons/Ediciones jurídicas y soviales, 2000. p. 11-28.

RODRIGUES, Gilberto Marcos Antonio.  Internacionalismo Municipal. In: RODRIGUES, Gilberto, XAVIER, Marcos (Orgs.) In: Cidades em Relações Internacionais: análises e experiências brasileiras. São Paulo: Desatino, 2009. p. 35-46.

SEPROTUR. Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo. Mato Grosso do Sul. Desempenho do Comércio Exterior de Mato Grosso do Sul – Janeiro/Dezembro de 2010. Disponível em: < http://www.unisite.ms.gov.br/unisite/sites/seprotur/index.php?inside=1&tp=3&show=960>. Acessado em 07 de fevereiro de 2011.

 

Henrique Sartori de Almeida Prado

Professor da Faculdade de Direito e Relações Internacionais da UFGD








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